Agora que virei Home

12 de July de 2008 - Fernando Roberto

De repente meu gerente me liga e pergunta – “Você é Home, certo?”. Fiquei meio constrangido com aquela situação, mas o que eu podia fazer? Eu tinha que responder àquela pergunta. “Olha, ainda não sou completamente, mas estou interessado em virar”, respondi. “Então preencha os formulários que eu aprovo”. Foi basicamente assim que virei Home Office.

Como funcionário regular, eu ainda tinha o direito de fazer Home Office 2 dias por semana. No início vem um sentimento de culpa. Não dá pra aceitar, assim de cara, que não terei que levantar às cinco e meia da manhã e enfrentar quase duas horas de trânsito para sair de Santo André, pegar a Avenida dos Estados e finalmente chegar ao prédio onde trabalho. Confesso que não sair de casa tão cedo e me sentar em frente ao notebook da empresa usando um moletom causa um certo desconforto no início. Dá a impressão de que não estamos trabalhando, de que estamos fazendo alguma coisa errada.

Depois do sentimento de culpa vem o relaxo. Até hoje eu continuo levantando cedo para poder levar minha esposa até a estação de trem, que fica à exatos 7 minutos de minha casa. Nas primeiras semanas, eu voltava para a cama e dava mais uma dormida até às nove da manhã. Já consegui chegar no trabalho com 30 minutos atraso mesmo estando a vinte metros dele. Tomar café da manhã em frente ao notebook virou rotina. Mas isso passou. Acho que conforme o tempo foi passando, o corpo e a mente vão ficando mais descançados, até uma hora que não dá mais vontade de voltar para a cama. Além do mais, eu ainda tenho uma lista razoável de livros para ler. O tempo que antes eu gastava no trânsito, agora eu gasto lendo e isso está dando muito certo.

Meus vizinhos agora devem pensar que fiquei desempregado e que sou sustentado pela minha esposa. Tem uma pessoa que além limpar minha casa, prepara meu almoço. Assim, eu consigo almoçar em 15 minutos e não vou voltar correndo para o notebook depois disso. Eu preciso fazer minha fotosíntese. Para isso vou tomar um café expresso em uma padaria que fica láááááááá em cima e aproveito para tomar sol caminhando até a padaria. Ter horário para tomar sol até parece programa de presidiário. Às vezes eu levo meus cães para passear durante meu horário de almoço. Eu não culpo meus vizinhos. O que você pensaria se visse uma pessoa de uns trinta anos de idade, com a barba de dias na cara, passeando com cachorros ao meio dia? “Esse aí leva cães para passear para poder conseguir o dinheiro da pinga”.

Bom, eu estou mesmo babando e andando para os vizinhos. Complicado é o que seus parentes pensam de você. Para tomar café, eu passo em frente à casa de uma tia. Sabe aquela tia que tudo o que ela conseguiu entender sobre o que você faz é que você trabalha com computadores, ela só não tem certeza se é limpando ou vendendo. Numa dessas idas e vindas do café, acabei me encontrando com ela. “E aí Fernando, está de folga?” – ela pergunta. “Não tia, agora eu trabalho em casa” – eu respondo todo satisfeito, mas olhando sua expressão, dá pra imaginar as engrenagens na cabeça dela – “Vixe tadinho, deve estar fazendo aqueles bicos do tipo Trabalhe em casa, pergunte-me como.

Mais difícil que se convencer de que você pode trabalhar em casa, é convencer os outros de que você está trabalhando em casa. Na época em que eu fazia Home Office apenas 2 vezes por semana, minha esposa sempre me perguntava – “Você vai trabalhar amanhã?”, como se eu não trabalhasse em casa. Meu irmão uma vez me disse, ” …mas você não vai ficar em casa amanhã? Então, eu passo lá e a gente vai ver aquela peça do carro”.

Trabalhar em casa exige disciplina, embora eu possa fazer meu próprio horário, eu prefiro ter horário fixo para almoçar, começar e parar de trabalhar. Não estou falando apenas de trabalhar menos. Trabalhar demais é um risco maior. Você já está alí com um pepino pra resolver, falta só mais aquele último teste, que é o último há uns 5 testes atrás, você não tem que pegar trânsito, já está no conforto do seu lar e quando você vê já são nove da noite.

Não muda nada para a empresa?

Eu trabalho em um time global. Uns aqui, outros nos Estados Unidos e India. O gerente do time de desenvolvimento está em outro hemisfério. Você acha mesmo que isso vai fazer alguma diferença pra ele? Mesmo quando eu estava trabalhando no prédio, tudo que eu precisava era de um ponto de rede. Apesar de eu ter um notebook, este é utilizado para abrir uma sessão remota em uma das máquinas que servem os laboratórios externos (Brasil e India). As máquinas de teste são virtuais em sua maioria, as reais também são acessadas remotamente. Todas as reuniões são feitas via Web Conference. Seu ramal é desviado para uma ferramenta VOIP no notebook. Você disca um ramal pra falar com alguém do outro lado do planeta. Tudo através de um ponto de rede.

Quando você vira Home Office, a empresa te dá um limite de reembolso para comprar móveis, aparelho e conta telefônica, Internet banda larga, impressora e material de escritório. Obviamente tudo tem que ser devolvido quando você deixar de ser Home Office. Felizmente minha casa já tinha todos os requisitos necessários, e assim, não vou ficar usando uma mesa ou cadeira que não são minhas mesmo. O bom disso é que eu posso trocá-los quando eu quiser.

O que principalmente vai mudar para a empresa, é que agora eles terão mais uma baia livre. Uma empresa deste tamanho não cabe nos prédios onde estamos (isso mesmo, no plural). A empresa incentiva o Home Office. Uma das cláusulas da transição para Home Office é a de que você deve permanecer no mínimo um ano nesta condição. Fiquei preocupado quando li essa parte, então fui perguntar às pessoas que já eram Home Office o que eu não estava conseguindo ler nas entrelinhas. O que acontece é que na empresa que trabalho, a grande maioria dos funcionários são vendedores. Vendedor é o tipo de profissional extrovertido, que fala bastante e preza muito o contato com as pessoas. Para esse tipo de pessoa, ficar enclausurado dentro de casa é a morte. Tanto que muitas pessoas que são Home Office deixam suas casas para disputar baias vagas aos tapas lá no prédio. Minha esposa mesmo, se ficasse em casa, morreria louca mordendo o braço do sofá em menos de um mês.

Pois é, existem pessoas e pessoas. Como você já deve ter percebido, sou desenvolvedor de software. Sou do tipo de pessoa que prefere ter seu tempo para fazer as coisas, gosto de ter meu espaço. Não estou dizendo que tenho alergia a pessoas e que ando com um saco de papel enfiado na cabeça. Só estou dizendo que não me importo de ficar trabalhando sozinho em casa, onvindo meu som preferido enquanto faço tudo pela internet. Aliás, isso me dá um gancho pra falar de um livro que li e que imaginei nunca ter a oportunidade de comentar a respeito neste blog técnico. Este livro fala justamente das diferenças entre pessoas extrovertidas e introvertidas. Explica que apesar de 75% das pessoas serem extrovertidas, não há nada errado em ser introvertido. O livro explica que pessoas introvertidas tem lá suas vantagens. Elas se concentram com maior facilidade. Conhecem menos assuntos, mas com mais profundidade. Tem menos amigos, mas são amizades mais intensas. Achei o livro interessante, com suas estatísticas e fundamentos para explicar o por quê do comportamento das pessoas.

Ainda não falei tudo que poderia falar sobre minha transição para Home Office, mas este post já está ficando longo demais para um Off Topic.
Até mais…

3 Responses to “Agora que virei Home”

  1. Danizinha says:

    Pois é… este post está assustadoramente engraçado! rs*

    O legal é que vc vê diversas coisas interessantes em trabalhar em casa, acho que como auto-ajuda tá perfeito, rssss* brincadeirinha!

    Eu mesma, quando seu irmão me disse que ia trabalhar remoto, já falei: Aproveita e vai no sacolão, porque não fizemos feira, e etc…

    Você “falou” uma coisa certa: ninguém entende o que a gente faz, se trabalhamos com TI… minha mãe mesmo, fica super feliz quando diz para o povo que trabalho com Oracle, mas não faz a mínima idéia do que isso significa, rss*

    É, a “mudernidade”.

    Daqui a pouco começa sua fotossíntese, né?

    []´s

  2. Douglas says:

    Olá Fernando. Trabalho em Campinas/SP e estou começando a me envolver com device drivers para um projeto de porting de drivers que estão escritos em WDM para o novo framework WDF. Já encontrei diversas informações interessantes no seu blog. Parabéns pelo trabalho.

  3. techberto says:

    Pois é Fernando,

    É como sua cunhada falou, porém dentro da minha perspectiva, para os alienígenas da tecnosfera entender os seres deste mundo dos bits e bytes nem sempre é fácil! E os que trabalham com o ring 0,1,2 e hypervisor mode, são incompreendidos até pelo pessoal do ring 3 num contexto de home office. Afinal, e ser der tela azul como este cara vai fazer? 🙂

    Como standalone ou startup sobre home office este post está excepcional, muito bom! E o legal é que ele não se aplica apenas ao teu caso, ele pode ser referência para qualquer home worker.

    ++[];

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